top of page
Leandro_Juen.JPG

Artigo: A Amazônia que não aparece nas fotos: e por que ela é essencial

Prof. Dr. Leandro Juen

Pesquisador no Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC) · Universidade Federal do Pará 

     Quando falamos da biodiversidade amazônica, muitas pessoas pensam imediatamente na floresta, nas proporções maiores, nas árvores grandes, nos mamíferos, nas aves, nas coisas que são mais perceptíveis aos nossos olhos. Mas existe uma parte imensa dessa biodiversidade que quase nunca aparece nas imagens mais conhecidas da Amazônia.

     A biodiversidade pequena, escondida, aquática, subterrânea, microscópica e funcional é extremamente importante para os serviços ecossistêmicos. Quando falamos de polinização para a produção das frutas, controle biológico para que tenhamos uma quantidade menor de pragas, para que os processos de água limpa nos igarapés aconteçam, tudo isso depende dessa biodiversidade invisível.

     Nos igarapés amazônicos, por exemplo, existe uma vida riquíssima que passa despercebida. Os insetos aquáticos, os peixes pequenos, as plantas aquáticas, os zooplânctons, os fitoplânctons, os fungos microscópicos e muitos outros organismos sustentam processos fundamentais para o funcionamento desses ecossistemas.

"Para ter o peixe, que é um produto que apreciamos tanto na Amazônia, é necessário todo esse conjunto de biodiversidade funcionando."

     Esses organismos participam da decomposição da matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes, da qualidade da água e da manutenção das cadeias alimentares. Uma coisa importante é que a biodiversidade não é apenas uma lista de espécies. Biodiversidade é funcionamento, é relação, é equilíbrio, é a capacidade do ecossistema continuar produzindo água limpa, regulando o clima, mantendo alimentos, sustentando culturas, garantindo qualidade de vida.

     Nosso trabalho na Amazônia, especialmente com igarapés e insetos aquáticos, tem mostrado que organismos muito pequenos podem revelar mudanças ambientais muito grandes. Muitas vezes, antes de que uma pessoa perceba visualmente que um ambiente está degradado ou alterado, a comunidade de insetos aquáticos já está sinalizando essa alteração.

    Talvez uma das coisas que as pessoas menos percebam é que a biodiversidade amazônica não está apenas no que é grande, no que é visível. Ela está nos pequenos detalhes. E muitas vezes são esses detalhes que mantêm a Amazônia viva.

     Não é possível conservar, restaurar ou usar de forma sustentável aquilo que não conhecemos. Hoje se fala muito em bioeconomia, no grande potencial de conservação da Amazônia por essa via. Mas a Amazônia, uma das regiões mais biodiversas do planeta, ainda é pouco conhecida em grande parte de suas espécies, suas funções ecológicas e suas respostas às mudanças ambientais.

    As estimativas apontam que a Amazônia abriga cerca de 10% de todas as espécies conhecidas do planeta: uma a cada dez espécies conhecidas no mundo vive aqui. Esse número varia entre os diferentes grupos: cerca de 18% das plantas vasculares do mundo estão na Amazônia, 14% das aves, 9% dos mamíferos, 18% dos peixes. Das libélulas, grupo com o qual trabalho, temos 820 espécies no Brasil e 400 delas são registradas aqui na Amazônia.

    E ainda há muitos lugares que não conseguimos amostrar suficientemente. Esses 10% são subrepresentados e, com certeza, a proporção vai ser muito maior.

    Hoje a Amazônia enfrenta pressões muito fortes: desmatamento, mudanças climáticas, fogo, mineração, expansão de infraestrutura, mudanças no uso do solo e alterações dos ambientes aquáticos. Esses impactos não afetam apenas a floresta em pé. Eles afetam também os riachos, os igarapés, os peixes, os insetos aquáticos, as plantas, os microrganismos e as populações humanas que dependem desses sistemas.

     Compreender a biodiversidade da Amazônia é também compreender como a própria Amazônia funciona. Cada espécie tem uma história evolutiva, uma função ecológica e uma relação com o ambiente. Quando perdemos espécies ou simplificamos ecossistemas, podemos comprometer processos essenciais como a regulação do clima, a manutenção da água, a fertilidade dos solos e a resiliência dos ambientes diante das mudanças climáticas.

"A Amazônia só poderá ser base de uma bioeconomia justa e sustentável se a biodiversidade for conhecida, valorizada e protegida."

     A pesquisa científica tem um papel fundamental porque ela ajuda a transformar a percepção em evidência. Muitas vezes sabemos que o ambiente está mudando, mas precisamos entender como ele está mudando, quais organismos estão sendo afetados, quais processos ecológicos estão sendo comprometidos e quais ações podem ajudar na conservação ou na recuperação.

     Na Amazônia, a pesquisa científica é ainda mais importante porque estamos falando de uma região muito diversa, muito extensa e ainda pouco conhecida em muitos aspectos, o que chamamos de lacunas de conhecimento. Cerca de 52% da Amazônia não tem a biodiversidade conhecida nessas áreas.

     Precisamos muito investir em ciência básica na Amazônia se queremos transformá-la em um potencial da bioeconomia. Não basta importar modelos prontos de outras regiões do mundo ou do Brasil. Precisamos produzir conhecimento a partir da própria Amazônia, com instituições amazônicas, pesquisadores que conhecem o território e parceria com comunidades locais, com respeito, onde eles são ouvidos de forma ativa e o conhecimento é feito em coprodução com os povos indígenas, comunidades tradicionais e diferentes setores da sociedade.

     No nosso caso, temos trabalhado com organismos aquáticos, especialmente insetos, peixes e plantas aquáticas, para entender como os igarapés amazônicos respondem às mudanças no uso da terra, à mineração, à perda de florestas e a outras pressões humanas. Esses organismos funcionam como sensores ecológicos e ajudam a mostrar se o ambiente está íntegro, alterado ou em processo de recuperação.

     A pesquisa também permite sair de uma conservação baseada apenas na reação ao problema e avançar por uma conservação baseada em planejamento. Com dados de qualidade, podemos identificar áreas prioritárias, monitorar impactos, avaliar medidas de restauração e orientar políticas públicas.

     O consórcio BRC é importante nesse contexto porque fortalece uma agenda de pesquisa colaborativa, conectando diferentes instituições e saberes para enfrentar desafios que são grandes demais para ser resolvidos de forma isolada. Conservar a biodiversidade amazônica exige ciência de longo prazo, cooperação, formação de pessoas e compromisso com o território.

"No fundo, a pesquisa científica ajuda a fazer uma pergunta essencial: que Amazônia queremos deixar para as próximas gerações?"

     E é mais que isso: ela ajuda a encontrar os caminhos para que a Amazônia continue viva, diversa e cada vez mais capaz de sustentar vida, cultura e futuro.

Prof. Dr. Leandro Juen é biólogo, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisador do Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC). Especialista em insetos aquáticos e ecologia de igarapés amazônicos.

SOBRE NÓS

O Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC) foi criado em 2013. Reunindo cinco instituições brasileiras e norueguesas, o objetivo principal da cooperação é desenvolver pesquisas ambientais na Amazônia oriental brasileira.

LOCALIZAÇÃO

BRASIL

Secretaria Executiva

Flora Bittencourt

Instituto Peabiru

flora@peabiru.org.br

CONTATE-NOS

Interessado no BRC? Envie-nos um e-mail: adm@brcbn.org.br

2023 BRC Brasil-Noruega. Todos os direitos reservados

bottom of page